PEDALADAS NO ESCURO: GRUPO USA BIKES TANDEM PARA LEVAR CEGOS ÀS RUAS DE SP

Centro Histórico da Cidade de São Paulo, 15 de agosto de 2026

Ver pessoas cegas e com baixa visão romperem as barreiras do isolamento e ocuparem o asfalto paulistano sobre bicicletas de dois lugares em pleno trânsito noturno expõe a força transformadora do esporte adaptado e escancara a necessidade de uma metrópole mais humana, inclusiva e acessível a todos.

Nesta semana, a iniciativa criada pelo grupo Blind Sports Brasil voltou a ganhar destaque ao completar novas etapas de passeios no coração da capital. O projeto utiliza bicicletas do tipo tandem — nas quais o ciclista-guia vidente ocupa o selim dianteiro e a pessoa com deficiência visual pedala na parte traseira — para proporcionar a experiência de liberdade, vento no rosto e ocupação do espaço público a quem antes enxergava o ciclismo como um sonho inalcançável.

A ENGRENAGEM DO FATO: O projeto nasceu em 2020 a partir da determinação da patinadora e paratleta Bia Santana. Aos 27 anos, Bia perdeu a visão em decorrência de complicações sérias da diabetes. Após superar um período de depressão com o auxílio do esporte adaptado, ela decidiu criar uma rede de apoio para garantir que outros deficientes visuais pudessem vivenciar a mobilidade e o lazer ao ar livre.

Atualmente, o grupo se reúne semanalmente às quartas e quintas-feiras, por volta das 19h30, com ponto de partida na Estação Marechal Deodoro do Metrô, na Região Central. Utilizando uma frota de 10 bicicletas tandem, participantes e voluntários percorrem trajetos emblemáticos da cidade, incluindo as avenidas Angélica, Rebouças, Paulista e as vias de acesso ao Parque do Ibirapuera. Além das pedaladas urbanas noturnas, a ONG organiza cicloviagens nos finais de semana para destinos mais longos, como Paranapiacaba, Santos, Salesópolis e Aparecida.

VOZES E ANÁLISE: A dinâmica do projeto exige sincronia absoluta e confiança mútua entre a dupla. Para atuar na liderança da bicicleta, os voluntários passam por um rigoroso treinamento prático, que inclui pedalar com os olhos vendados para sentir na pele as reações, os desequilíbrios e a percepção sensorial exigida durante a navegação.

“Permitir que pessoas cegas ocupem a cidade e sintam a velocidade do trânsito faz parte do esporte e da busca pelo equilíbrio, não da limitação da cegueira”, reforça a fundadora Bia Santana. Especialistas em inclusão e mobilidade ressaltam que ações como a do Blind Sports preenchem uma lacuna histórica de lazer acessível em São Paulo, onde calçadas esburacadas e a escassez de transporte adaptado frequentemente confinavam pessoas com deficiência a ambientes fechados.

Apesar do impacto positivo, o projeto atua no limite de sua capacidade. Mantida exclusivamente por doações e parcerias pontuais, a ONG enfrenta dificuldades com a alta rotatividade de ciclistas-guias voluntários, o que deixa dezenas de deficientes visuais em uma angustiante fila de espera por uma oportunidade de pedalar.

DADOS OFICIAIS:

• Nome do Projeto: Blind Sports Brasil.

• Idealizadora: Bia Santana (paratleta e patinadora, perdeu a visão aos 27 anos por retinopatia diabética).

• Ano de Fundação: 2020.

• Estrutura e Frota: 10 bicicletas tandem (duas vagas) e atendimento médio de 30 ciclistas por semana.

• Ponto de Encontro Noturno: Estação Marechal Deodoro (Metrô / Linha 3-Vermelha), às quartas e quintas-feiras, às 19h30.

• Principais Rotas Urbanas: Avenidas Angélica, Rebouças, Paulista e Parque do Ibirapuera.

• Destinos de Cicloviagens: Santos, Aparecida, Salesópolis, Mogi das Cruzes e Paranapiacaba.

• Principal Gargalo Operacional: Escassez e rotatividade de guias voluntários treinados diante de crescente fila de espera.

O RIGOR DA INCLUSÃO: O cidadão paulistano não pode aceitar que a inclusão social e o direito à cidade para pessoas com deficiência dependam unicamente do esforço heroico de voluntários e ONGs sem apoio governamental estruturado. O direito de ir, vir e praticar esportes com segurança nas vias públicas é uma conquista civil básica.

O poder público municipal e os órgãos de trânsito precisam olhar para iniciativas como o Blind Sports com prioridade, oferecendo suporte infraestrutural, fomento a projetos de esportes adaptados e ampliação de rotas cicloviárias seguras. Garantir que a bicicleta seja uma ferramenta de inclusão para todos é dever de uma sociedade justa.

AGORA A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:

Você acredita que a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado deveriam financiar frotas públicas de bicicletas adaptadas e incentivar financeiramente projetos de guias inclusivos, ou a promoção do esporte para pessoas com deficiência deve continuar sob a responsabilidade do voluntariado civil?

 

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