Você já se perguntou por que algumas pessoas ficam emocionadas, arrepiadas ou até choram ao ouvir uma música, enquanto outras simplesmente dizem “é só som”? Essa diferença não é questão de gosto ou educação musical — é, em grande parte, uma característica neurológica real chamada anhedonia musical específica (ou “specific musical anhedonia”). Estudos recentes, liderados por pesquisadores da Espanha, Canadá e Estados Unidos, mostram que cerca de 3% a 5% da população tem um cérebro que não libera dopamina significativa ao ouvir música, mesmo gostando dela intelectualmente ou reconhecendo sua qualidade.
O que acontece no cérebro de quem “não sente nada”?

Pesquisas publicadas entre 2014 e 2025 (principalmente por Josep Marco-Pallarés, da Universidade de Barcelona, e Robert Zatorre, da McGill) usaram ressonância magnética funcional (fMRI) e PET-scan para comparar dois grupos:
- Pessoas com resposta emocional intensa à música → forte ativação do núcleo accumbens (centro de recompensa do cérebro) e liberação maciça de dopamina quando ouvem trechos emocionantes.
- Pessoas com anhedonia musical → o núcleo accumbens não se ativa (ou ativa muito pouco) durante a audição, mesmo quando elas reconhecem a música como bonita, bem executada ou emocionalmente expressiva.
Curiosamente:
- Elas não têm anhedonia geral (sentem prazer com comida, sexo, dinheiro, jogos etc.).
- Não apresentam transtornos psiquiátricos graves.
- Muitas gostam de música, vão a shows, colecionam discos — apenas não têm o “arrepio”, o “nó na garganta” ou a “emoção forte”.
Isso indica que o prazer musical depende de uma via específica de recompensa que, em algumas pessoas, simplesmente não se conecta com a audição.
Principais Descobertas Científicas (2014–2025)

- Estudo seminal (2014) — Publicado na Nature Neuroscience: 27 pessoas com anhedonia musical específica mostraram zero ou quase zero ativação dopaminérgica no núcleo accumbens ao ouvir trechos escolhidos por elas mesmas como “muito emocionantes”.
- Estudo de 2021 (Barcelona/McGill) — Confirmou que a falta de prazer não está ligada a diferenças na percepção auditiva ou na memória musical. O cérebro “entende” perfeitamente a música, mas não a recompensa.
- Pesquisa genética (2023–2025) — Variantes em genes relacionados à dopamina (DRD2, COMT) e ao sistema opioide aparecem com maior frequência em quem tem anhedonia musical, sugerindo componente hereditário parcial.
- Estudo de 2025 (PNAS) — Pessoas com anhedonia musical têm menor conectividade funcional entre o córtex auditivo e o sistema de recompensa (núcleo accumbens + córtex orbitofrontal), mesmo em repouso.
Impacto na Vida Real
Quem tem anhedonia musical específica costuma dizer frases como:
- “Eu gosto de música, mas não sinto nada especial.”
- “Vejo todo mundo chorando em show e fico pensando: o que tem de errado comigo?”
- “Prefiro a análise técnica da música do que a emoção.”
Isso não significa que sejam “frias” ou “sem emoção” — apenas que a música não ativa o mesmo circuito de prazer que ativa em 95% da população.
Reflexões Atuais
Psicólogos e neurocientistas destacam que entender a anhedonia musical ajuda a combater o estigma: “Nem todo prazer é universal. O cérebro humano é diverso, e isso é normal”.
O Jornal 25News traz essa descoberta porque ela revela algo profundo sobre nós mesmos: o que nos emociona (ou não) pode estar escrito, em parte, na arquitetura do nosso cérebro. Se você ouve música e “não sente nada” — não se preocupe. Seu cérebro simplesmente escolheu outro caminho para o prazer. E isso também é humano.
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